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Essa ancestralidade de sombras apagadas da memória da humanidade ainda vai fazer desse (re)descobrimento feminino muita arte, e arte além da criação de musas acolhedoras e curandeiras de machucados masculinos. Já deu, elas já dizem que basta. Tem muita informação inexplorada no corpo feminino, em cada corpo.
Ser mulher de si e selvagem tá dentro, com toda a sua essência de sombra, luz, guerra, paz e algo a mais que o tempo ainda vai me revelar. O que não pode é essa mulher ficar parada, você mulher que move, você já faz revolução.
Aprendi em algum momento da vida a ser lua que mingua mas que
também cresce.
Aprendi a entender que ciclo é parte do todo e que o todo é feroz
Entendi que movimento desenvolve a fluidez e que é do caos que a força da
sutiliza surge;
Entendi que a leveza provém da força mas que sem dor a força não será conhecida
Tive tempo de entender que machucados demoram pra cicatrizar
E tudo bem não cicatrizar
Aprendi a ser deusa da guerra e da paz ao mesmo tempo
E que eu possa ter sabedoria pra saber qual delas deve se manifestar no agora;
Lua cheia é fera mansa e quando mingua abre espaços para crescer o novo
E de novo
Aprendi a me esconder do perigo, como gato arisco que se esconde do cão raivoso
Mas também aprendi a arranhar
E a viver desafiando a lei dominante e a conquistar espaços
Como lua nova aprendi a silenciar as emoções mas como lua cheia aprendi
vomitá-las na cara de quem pediu
Entendi que dá pra ser escudo de si mesma e também que dá pra compartilhar
Sendo mulher deu pra aprender a humildade das relações e que dá pra ter troca
verdadeira quando se abre a alma
Que não se é feliz sozinha e que absolutamente tudo é relação
Dá pra ser leve em meio ao peso isso deve sim ser compartilhado
O que aprendi crescendo com gato
Gato ensinou a ser amor por si e amar sem possuir.
Aprendi com o gato a ser silêncio quando o mundo é barulho e a fazer barulho quando se corre perigo
O gato ensina a alongar o corpo ao acordar, a abrir espaços
nas articulações e a abrir espaço para a vida, mas quando quer
Gato ensina a querer e deixar de querer
Gato ensina que dá pra mudar de ideia e que o momento mínimo de um segundo poder ser suficiente pra uma mudança drástica de humor
O gato ensina a ter atenção e curiosidade

(Foto Duda Berlitz)
O gato me ensinou a ser brincadeira e na brincadeira exercitar a caça
Gato ensinou a não perder a criança, não perder a vontade e não deixar de ser bagunça
O gato ensinou a higiene e o cuidado com o próprio corpo e que esse corpo só é tocado por quem e quando ele quer.

(Foto: Duda Berlitz)
Não é a toa que se associam mulheres aos gatos
Aquele poder místico que ambos desenvolvem é instinto
primário
As bruxas tiveram gatos e foram queimadas por serem como eles
Mulher por ser mulher já faz tremer na base
Gato por ser gato já causa estranhamentos
Conviver com vários gatos ensinou a perceber os sinais de
afeto sem cobranças e que o cuidar pode ser estar próximo, silencioso, observador, atento e pronto pro ataque.
O gato me ensinou a auto defesa e a defender com unhas e dentes quem a gente
ama.
Gato ensina a ter garra quando é preciso, ser manso quando
quer e que tudo bem em pedir carinho às vezes
Aprendi a olhar pra dentro e arranhar quem tira o sossego
Gato ensina a ser inteligente e que se o caçador é maior a gente foge mesmo
Aprendi a ser arisca, cuidadosa e manhosa com quem merece
Gato ensina o tempo da confiança e que confiança é
construção de afeto
Aprendi a olhar o lado de dentro do outro e que se o santo
não bate a gente não insiste só por educação
GATO NÃO TEM EDUCAÇÃO

(Foto Dani Durães)
Gato ensina a dar sem pedir nada em troca
E que gratidão manifesta-se em atitudes, não em palavras
vazias
Gato ensina a ser oculto e a não se doer quando está
escondido
Que não precisa provar nada pra ninguém e nem mesmo para si
Gato sabe recuar quando é preciso e a avançar quando não tem
outra opção
O gato sabe caçar, segurar a caça e dividir com a cria
Sabe fugir, sabe brigar, recuar e acima de tudo conquistar
espaço
Se tem uma coisa que gato sabe é conquistar
Gato sabe que conquista é tempo e estratégia mansa
Gato sabe segurar a presa, a terra, o espaço
Gato briga pelo espaço conquistado e não há quem desmarque
seu território
Gato não é bicho pra se guardar
Gato é bicho pra ser gato e apenas ser
Cheio de si ele conquista e assusta o mundo há séculos e nem mesmo por isso deixa de ser.
Da calmaria e da expansão
Sinestesia
substantivo feminino
1. Produção de duas ou mais sensações sob a influência de uma só impressão.
2. Figura de estilo que combina percepções de natureza sensorial distinta.
“Pra mim, Dani: um eterno azul manchando-se de cores distintas. Relação de afeto, contínuo e efêmero.
Viver em cores, saturar-se de cores, cansar-se de outras cores ou se sentir invadida, às vezes permitir-se borrar, ver nos outros suas cores, mas não ser bem uma função da visão, um terceiro olho, capaz de olhar o invisível e nunca poder manifestar com total realidade o que se sente. É carregar em si todas as cores do mundo, só que do lado de dentro.
You need it
Your world is here
You can’t go out
I’m sorry
The world is killing you
Your nervous system’s down
NOW
Embrace your digital spirit
It is your only strength today.
- Dani Durães
ph: Igor Oliver Art
https://www.youtube.com/watch?v=o8g32NZcjLs&feature=youtu.be
Chegou, sujou, permaneceu, marcou…
Ela jurou não mais permitir que algo lhe tirasse a visão…
Não deu certo
Os pés no chão deixaram de ser estáveis. O chão que era algo firme para se apoiar tornou-se trêmulo.
A visão borrou, deu vertigem.
Não se olha mais para baixo.
Permanece ela com sua sujeira exposta, incapaz de enxergar-se em totalidade.
Algo chegou, marcou, sujou e foi embora com sua presença limpa.
Algo que limpou-se nela, deixou feridas não mais cicatrizadas.
Tomou conta daquele pouco entendimento do real que lhe restava.
Levou tudo.
Assim: devastador
Num único aproximar
Ela?
Se reconstrói de cinzas e sujeira que não faz questão de esconder, mesmo que sem querer.
Ela de pedra, seca, vazia veio a transbordar-se em emoção líquida. Sem sua película protetora expõe sua sujeira de lamentos que não a abandonam assim tão fácil, porque brutalmente fazem questão de permanecer naquele corpo alimento.
ph:Bia Varella
ENTRANHAS
Ele foi chegando no íntimo, da maneira mais brutal possível. Ele, aquele animal sedento, com fome, desesperado por alimento. Ele pediu, ela fugiu de medo, correu para um beco sem saída. Mal percebeu a armadilha, não deu tempo, ele conseguiu o que queria. Seu coração queimava de dor e ardência, o estômago já se desfazia, enquanto ela vomitava suas tripas fora. Ele permaneceu procurando espaço sem pedir licença, gritava absurdos em seus ouvidos. Ela entrou em pânico, as mãos suadas gelaram, e ele comeu. Comeu da sua alma ao seu alimento do estômago, gritava, e se adentrou no meio de suas entranhas.
“Saudade!” Dizia.
Dizia também para que ela não o abandonasse assim, ele precisava de alimento.
Ele mesmo, aquele monstro que vive no escuro mais profundo de suas entranhas,
aquele animal que permanece dentro dela a ponto de ela não conseguir mais se
reconhecer.
Passou a
escrever em terceira pessoa sobre si mesma, aquele animal que não é ela, mas é
dela, tornou-se orgânico, exigente e desesperado. Vício angustiante da alma
simples. Ele corroeu o peito, fez do corpo dela farelo de pão podre, que ele insistentemente
comia desesperado, pois ela por medo não o alimentava mais. Mal sabia ela que
ele fazia parte da sua sentença que é viver. Sua dor tornou-se ele, sua alegria
também. Por um tempo foi só lágrima, a ponto de ela não imaginar a
possibilidade de sorrir novamente.
Ele chegou
cedo, ela foi violentamente jogada em gaiola de leões, acostumou-se com a dor,
tentou fugir, mas as gaiolas insistem em aprisioná-la. Ele, o animal vivente
dentro dela já se libertou, e ainda alimentou-se do que restava de farelo. Sua
pele ferida sentia a ardência, onde de dentro pra fora ele saiu, vomitado,
berrando, deixando-a tonta e depois cansada. Ela anestesiou-se de tanta dor,
ardência e sufoco. Seus medos mais profundos tornaram-se pequenos diante daquele
monstro que era ela mesma. Sua mente, seu corpo, suas entranhas sombrias explodiram.
Ela resgatou as cinzas que sobraram dos cigarros e dela mesma e tentou
ressurgir mais forte, não deu, ela apagou. Dormiu vazia, acordou-se sentindo
apagada. Diluiu-se entre tantos outros corpos brilhosos, melhores do que ela
podia ser. Ela apagou, amoleceu, caiu.
De tanto encolher, voltou para o útero de sua mãe. Sentiu o gosto daquela prisão que é sentir-se florescer e crescer. Esse animal é parte dela desde muito antes de se conhecer sua história. Não se sabe de onde ele vem, mas fez abrigo em sua alma, alimenta-se de seu corpo caído e enfraquecido. O tempo passa e ele apenas insiste em crescer, sem dar vazão para o crescimento dela. Enquanto isso ela vai encontrando espaço pra que ele se abrigue em silêncio no meio de seus estonteantes argumentos para permanecer viva e em pé. Ela caiu, as lágrimas não saiam mais, o mundo ao redor tornou-se imenso, as pessoas tornaram-se vertigem. A fuga não era mais possível. Ela não deu alimento, ele criou seu meio de alimentar-se. Jogou-a na gaiola, alimentou-se de seu sangue. Correu pela veia acelerado, destruindo tudo por onde passava. Seus órgãos vomitados no banheiro, sua pele marcada de tanto encolher e coçar e suas asas rasgadas de ferocidade. E o animal? Ah! Esse permanece vivo, imenso, fortificado, presente e assustadoramente feliz.
Sempre fui daquelas que gostam e apreciam belas palavras, poesia, palavra que arde, que esfria, mas que pra se arder ou esfriar um peito, precisa ser bem colocada. Não é difícil me impressionar com palavras bem colocadas, não precisa de palavras difíceis, nem virar um dicionário do avesso para encontrar maneiras de se dizer algo que se é. A dificuldade maior é colocá-la em estado de prática. Gosto daquelas palavras bonitas, mas elas só têm valor e brilho quando são mais que meras letrinhas enfileiradas em um texto, com algumas vírgulas, pontos finais e interrogações.
Já fui chamada algumas vezes de fria, sem coração por não reconhecer o valor do amor, e o que posso fazer é rir, HAHAHA, assim ironicamente, na sua cara mesmo, porque já que o amor está em pauta essa semana, vamos falar sobre a minha forma sem forma (fumaça) de amor.
Nem tente se aproximar com palavras bonitas, não funciona. Tem gente que diz que amo em preto e branco, e pode ser que seja assim mesmo. Já associaram meu modo de amar com um vulcão e isso me faz muito sentido. Por causa das cinzas. É verdade, eu amo em preto e branco e o resto é cinza.
Com peito quente, mas seca, devastadora, mas amo do fundo, do mais profundo sentimento que se pode conhecer de dentro, e isso é um processo. Não surge do nada, amo com a cabeça e o coração de mãos dadas, faço do sentimento, uma construção angustiante e necessária pra gerar movimento. Ele não acontece sem querer: vai acontecendo e eu vou moldando no peito conforme as situações se dão. E pra construir é necessário tempo, escuta e muito silêncio, porque é doloroso, e nem por isso deixa de ser bonito. Sou dessas que aprecia a beleza daquilo que é processo doloroso e profundo, porque é movimento. Nem sempre haverão palavras bonitas e enfeitadas de colorido que me ganhem, é preferível o silêncio, sempre.
Eu gosto mesmo é da devastação, se é pra ir, vou junto. Essa calmaria toda sem um pedacinho amargo não seria um amor suficiente pra mim. Tenho amor que esquenta o peito, dá tosse, dá choque, esfria as mãos de medo, arrepia os pelos, e cada sintoma é real, se dá no corpo, não nessas palavras sujas que escrevo agora.
Corra!
Fuja mesmo. Se o amor para uns é esse vício em palavras coloridas:
Palmas, parabéns!
Pra mim não desce, eu prefiro um silêncio, cairia melhor, ficar sem presente de aniversário, ou ficar sem carta de amor, é muito melhor. Amor se mostra porque ele escancara o peito da gente, e isso é de verdade, sem acelerar processos. Longe de mim amar em palavras e apenas. Ações, práticas, atitudes e sensibilidade são muito mais válidas, isso combina comigo. Estou constantemente afogada em minhas cinzas, seja elas do cigarro ou do coração ardido, e amar é se carregar nessas cinzas, sem se apropriar delas, porque elas são minhas. Eu não quero nenhum pedaço da cor do outro, só quero aquela mistura bagunçada por instantes, mas só isso. Nada invasivo e que torne minha essência vazia de si e tomada de cor alheia. Venha com seu azul, com seu vermelho, cor de rosa… Faça a bagunça que quiser, mas não saia por aí espalhando amor em palavras vazias, das minhas cinzas entendo eu, e mais ou menos.
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